FOTOGRAFIA: ARTE E TÉCNICA - EVOCAÇÕES DE 170 ANOS DE HISTÓRIA
No dia 17 de janeiro de 1840 o Jornal do Commercio noticiou a realização, pelo abade francês Louis Compte, de três daguerreótipos nas cercanias do Paço Imperial, na cidade do Rio de Janeiro, então sede da Corte Imperial. O Brasil inscrevia-se assim entre os primeiros países do mundo a ingressar na era da fotografia, pelas mãos de um amigo do próprio inventor do processo, Louis Jacques Mandé Daguerre. É justamente o centésimo septuagésimo ano de atividade fotográfica em nosso país que a presente exposição visa celebrar.
A daguerreotipia teve o anúncio oficial de sua invenção realizado em 19 de agosto de 1839, em Paris, em sessão conjunta das academias de Artes e de Ciências, de modo que sua chegada tão rápida ao Brasil já é por si só surpreendente. Porém, surpreendente mais ainda sabermos que antes disso, no começo desta mesma década, outro francês, Hercule Romuald Florence, havia realizado uma invenção autônoma da fotografia na então Vila de São Carlos (atual Campinas), na província de São Paulo, em 1833. Segundo desenhista da Expedição Langsdorff que o amor pela paulista Maria Angélica Vasconcelos fixara em terras brasileiras, Florence foi um prolífico inventor, mas, infelizmente, não teve possibilidade de difundir comercialmente seu processo. Seu pioneirismo começou a ser reconhecido entre nós a partir da biografia que Estevão Leão Bourroul lhe consagrou em 1900, e, em meados da década de 1970, o historiador Boris Kossoy conseguiu inscrever o nome de Florence no panteão internacional dos inventores da fotografia ao fazer com que o Rochester Institute of Technology repetisse suas experiências e comprovasse a viabilidade técnica da sua invenção. Sendo interessante lembrar que Florence chegou a usar o termo photographie e o verbo photographier em anotações datadas de 21 de janeiro de 1834. Ou seja, cinco anos antes que John Herschel sugerisse a adoção deste vocábulo para denominar genericamente os diferentes processos que coexistiam nesta ocasião.
Quando assistiu às demonstrações de Compte, dom Pedro II tinha apenas quatorze anos de idade, mas se entusiasmou de tal forma com o novo invento que encomendou de imediato um equipamento completo de daguerreotipia. O imperador o recebeu em março do mesmo ano, tornando-se assim o primeiro brasileiro nato a praticar a fotografia. Pedro II manteria o interesse pela fotografia pelo resto da vida, transformando-se também num pioneiro colecionador do gênero, constituindo uma coleção de mais de 25 mil imagens que doou generosamente à Biblioteca Nacional após seu banimento do Brasil pelos republicanos. Denominada a seu pedido: Coleção Dona Thereza Christina Maria, esta é hoje Patrimônio Cultural da Humanidade, inscrita no Projeto Memória do Mundo da Unesco. Nosso imperador não foi apenas o primeiro colecionador de fotografia do país e sim, com toda certeza, um dos primeiros colecionadores particulares de fotografia do mundo, numa época em que apenas três instituições se preocupavam com a conservação de fotografias: a Biblioteca Nacional e a Société Française de Photographie, em Paris, e a Royal Photographic Society, em Londres. Existe a possibilidade de que a rainha Victoria - que reinou entre 1837 e 1901 - possa ter se antecipado a dom Pedro II - que reinou entre 1841 e 1889 - neste tipo de colecionismo, já que ela também era uma entusiasta da fotografia. Se isso ocorreu, dom Pedro II seria possivelmente o segundo colecionador particular da história da fotografia. Contudo, mesmo que se descubram outros predecessores europeus, o imperador se manterá sempre entre os dez primeiros do mundo.
A expansão da fotografia no Brasil ocorreu nas décadas de 1840 e 1850 com os três processos pioneiros mais conhecidos - daguerreotipia, ambrotipia e ferrotipia -, deslanchando a partir da segunda metade desta última década com a progressiva substituição destes processos pela fotografia sobre papel albuminado, feita a partir de negativos de colódio úmido. Diversas capitais foram visitadas por daguerreotipistas itinerantes, que também realizaram incursões pelo interior das províncias em busca de clientes entre a aristocracia rural. Quase todos esses primeiros profissionais eram estrangeiros, que permaneciam entre nós por alguns meses ou anos, antes de retornar aos seus países de origem.
Dom Pedro II expressou sua admiração por diversos fotógrafos atribuindo a eles títulos e honrarias. Os primeiros beneficiados foram Buvelot & Prat, ativos na província do Rio de Janeiro e agraciados com o título de Photographos da Casa Imperial em 8 de março de 1851. A dupla foi seguida por Joaquim Insley Pacheco (em 22 de dezembro de 1855), e Joaquim Ferreira Villela (em 18 de dezembro de 1860), ambos na província de Pernambuco. Depois por Revert Henrique Klumb (em 24 de agosto de 1861), Stahl & Wanhschaffe (em 21 de abril 1862), e Diogo Luiz Cipriano (em 20 de setembro de 1864), todos três atuantes na província do Rio de Janeiro. A eles seguiram-se Antonio da Silva Lopes Cardoso (em 30 de novembro de 1864), na província da Bahia; Tomas King (em 18 de maio de 1866), na província do Rio Grande do Sul; José Ferreira Guimarães (em 13 de setembro de 1866) na província do Rio de Janeiro; e José Tomás Sabino (em 13 de agosto de 1873), na província do Pará. Depois vieram Henschel & Benque (em 7 de dezembro de 1874) e Antonio Henrique da Silva Heitor (em 2 de março de 1885) ambos na província do Rio de Janeiro; e Fernando Starke (em 14 de dezembro de 1886), na de São Paulo. E, no último ano do Império, Juan Gutierrez de Padilla (em 3 de agosto de 1889), na província do Rio de Janeiro; e Inácio Mendo (em 6 de agosto de 1889), na da Bahia.
Malgrado o interesse particular de dom Pedro II, a fotografia teve no Brasil oitocentista evolução menos intensa do que nos Estados Unidos e na Europa, em virtude de dois fatores básicos: a distância dos grandes centros produtores de câmaras e equipamentos fotográficos, e a predominância de uma população escrava. Diante disto, é compreensível o fato de que, em 1847, existissem apenas três fotógrafos fixos na cidade do Rio de Janeiro, com esse número elevado para onze em 1857 e chegado a 30, em 1864. Ao passo que em Londres, existiam 12 estúdios em 1851; 66 em 1855; 150 em 1857; 200 em 1861; e 284 em 1866. Apesar disto, foi na América do Norte que a fotografia se desenvolveu de forma verdadeiramente espantosa, conforme comprovou o historiador Robert Taft ao citar dados do censo norte-americano em sua obra fundamental: Photography and the American Scene. Graças a Taft, sabemos que em 1840, a profissão nem sequer era citada pelo censo, mas em 1850, já eram 938 os fotógrafos registrados; 3.154 em 1860; 7.558 em 1870; alcançando o impressionante número de 20.040 profissionais em 1890!
A MAGIA DO RELÓGIO DE VER
Com a fotografia nasceu uma nova maneira de ver o mundo, tanto do ponto de vista estético - com seus inusitados ângulos de visão; o desfoque; a imagem tremida e o registro do movimento - quanto pela absoluta precisão com que ela reproduzia a natureza.
Seu inigualável poder de fidedignidade fez da fotografia o veículo ideal para trabalhos de documentação, fazendo com que os álbuns de imagens etnográficas, com aspectos topográficos ou urbanos de países longínquos, começassem a surgir já em 1840. O primeiro deles foi Excursions daguerriennes (editado em fascículos deste ano até 1844), reunindo um total de 114 vistas de diferentes países da Europa, da África e dos Estados Unidos. Diante da inexistência de meios fotomecânicos de impressão, tanto neste livro como em obras posteriores, as imagens em daguerreotipia eram copiadas por gravadores que não hesitavam em adicionar passantes às vistas, de forma a obedecer ao gosto da época, refratário às paisagens desérticas dos primeiros daguerreótipos incapazes de registrar a figura humana em movimento. Entre 1844 e 1846, William Henry Fox Talbot, o inventor inglês da fotografia publicou The Pencil of Nature, primeira obra ilustrada com fotografias originais, sistema levado à perfeição industrial pelo editor francês Désiré Blanquart-Evrard. De sua gráfica em Lille saíram algumas das obras-primas do gênero, como Égypte, Nubie, Palestine et Syrie, volume com 125 fotografias de autoria de Maxime Du Camp, realizadas entre os anos de 1849 e 1851. Aqui no Brasil foi em 1860 que o francês radicado no Rio de Janeiro, Victor Frond, lançou o primeiro livro de fotografia da América Latina, Brazil Pittoresco, com texto de seu compatriota Charles Ribeyrolles. Em 1872 Revert Henrique Klumb fotografou e editou o livro Doze horas em diligência. Guia do viajante de Petrópolis a Juiz de Fora, com textos e fotografias de sua autoria. Década e meia mais tarde Militão Augusto de Azevedo, fez o mesmo com o Álbum comparativo da cidade de São Paulo, 1862-1887, trabalho de grande originalidade focalizando a capital paulista nestes dois momentos de sua expansão. No início do século XX, entre 8 de março de 1903 e 15 de novembro de 1906, Marc Ferrez documentou prédio por prédio, a construção da principal artéria carioca [a atual avenida Rio Branco], reunindo depois este trabalho no Álbum da Avenida Central.
A redução do formato das câmaras foi um dos objetivos buscados, com mais determinação pelos fabricantes. Em 1888, surgiu a Kodak com o tentador convite “aperte o botão, nós faremos o resto”. Em 1924 foi a vez da Ermanox (que empregava negativos de vidro de pequeno formato), e da Leica, que usava filme flexível de cinema de 35 milímetros. A Ermanox permitiu que Erich Salomon registrasse aspectos reservados das reuniões de cúpula dos dirigentes europeus no período compreendido entre as duas Grandes Guerras, inaugurando um novo estilo de comentário político na imprensa. A Leica possibilitou que Henri Cartier-Bresson desenvolvesse sua teoria do “instante decisivo”, baseada na antecipação do desdobramento de uma ação e do rápido registro deste desdobramento no momento em que todos os elementos constitutivos da imagem estivessem em sua configuração mais expressiva.
A reprodução das cores foi antiga aspiração, levando muitos a colorir daguerreótipos, na tentativa de remediar a ausência de cor dos processos fotográficos inaugurais. O primeiro pesquisador bem-sucedido neste campo foi Niépce de Saint-Victor (sobrinho de Nicéphore Niépce, o inventor francês da fotografia), responsável pela obtenção de daguerreótipos com tênue coloração. Contudo, foi somente em 1869 que Louis Ducos du Hauron e Charles Cros chegaram - simultaneamente, e sem conhecimento prévio das pesquisas um do outro -, a idêntico resultado na produção de imagens coloridas, através da combinação de três clichês monocromáticos de uma mesma imagem. Em 1907 surgiu o primeiro processo industrial de produção de fotografias coloridas: o Autochrome Lumière, amplamente difundido até 1932 - inclusive aqui no Brasil, onde era distribuído por Marc Ferrez. Os autochromes empregavam fécula de batata previamente tingida (1/3 de vermelho, 1/3 de azul e 1/3 de verde) e cuidadosamente distribuídas sobre uma placa de vidro. Em 1935 surgiria o Kodachrome, precursor dos modernos filmes coloridos, concebido por Leopold Manner e Leopold Godowsky. Composto por três emulsões independentes (a primeira sensível apenas ao azul, a segunda ao verde e a terceira ao vermelho), superpostas sobre a mesma base, o Kodachrome produzia slides de alta qualidade, sendo a emulsão preferida pelos primeiros fotojornalistas que se aventuraram a trabalhar com fotografia colorida. Em 1941, a Kodak introduziu o processo negativo/positivo na fotografia em cores com o Kodacolor, permitindo então a realização de numerosas cópias coloridas, sobre papel, de uma mesma fotografia. Seis anos depois foi lançado o Ektacolor, filme que podia ser processado pelo próprio fotógrafo e, portanto, colocava finalmente a fotografia colorida ao alcance de qualquer pessoa.
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Daguerreótipos norte-americanos de autoria desconhecida, década de 1840. |
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Ambrótipo norte-americano de autoria desconhecida, década de 1850. |
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Ferrótipo norte-americano de autoria desconhecida, década de 1860. |
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Meninos da Família Oliveira Barbosa, carte cabinet de Carneiro & Tavares, Rio de Janeiro, 1887. |
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Meninas da Família Muniz Freire, carte cabinet da Photographia Americana de Roltgen Silva & Cia., Rio de Janeiro, 1890. |
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Retrato de homem não-identificado [e o verso da mesma imagem], carte de visite de José Vollsack, São Paulo, c. 1892. |
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Grupo de turistas em visita ao cume do Corcovado, fotógrafo popular não-identificado, Rio de Janeiro, década de 1930. |
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Turista em visita à Praça da Liberdade, Petrópolis, década de 1930. |
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Arcos da Carioca [também conhecidos como Arcos da Lapa], estereoscopia colorida à mão, Conde de Agrolongo, Rio de Janeiro, c. 1890. |
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Sala de exposição do Museu de História Natural, estereoscopia, Conde de Agrolongo, Rio de Janeiro, c. 1890. |
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Cartões postais de autoria não-indicada da série de trabalhadores brasileiros, década de 1910. |
O ano de 1947 foi marcado pelo aparecimento de uma invenção revolucionária: a fotografia instantânea, com o processo Polaroid, inventado pelo Dr. Edwin Land. Ao possibilitar a contemplação da fotografia logo após sua execução, a Polaroid fechou um ciclo histórico ao recuperar o espírito da daguerreotipia (também de revelação imediata), e ao permitir a correção imediata de erros e imperfeições. Em 1963, Land surpreendeu novamente o mundo ao lançar a fotografia instantânea colorida. Vivia-se já então no auge da fotografia amadora que perdura até hoje e encontrou novo alento com a difusão da imagem digital, a partir dos últimos anos do século XX e, sobretudo, com a atual incorporação de câmaras fotográficas e cinematográficas até mesmo nos telefones celulares de preço mais acessível, circunstância que permitiu uma expansão sem precedentes da prática da fotografia. Isto porque, além de não ser preciso aprender os rudimentos da técnica, nem sequer é necessário fazer o investimento, ainda que módico, de aquisição de uma câmara, pois ao comprar o celular “se ganha” uma de presente. Com a vantagem suplementar de não existir também a necessidade de compra de filmes, chegando-se assim à inacreditável situação da fotografia a custo zero, que - no caso dos aparelhos mais sofisticados - pode ser imediatamente transmitida para qualquer parte do mundo. Vantagem que favoreceu em muito o chamado “jornalismo cidadão”, com a possibilidade de driblar a repressão dos regimes ditatoriais aos jornalistas profissionais com a denúncia dos abusos autoritários em tempo real.
Voltando um pouco atrás, convém citar antigas proezas técnicas quase inacreditáveis, como o registro perfeito de um relâmpago, em 1847, por Thomas Easterly, norte-americano de Saint Louis, e a primeira fotografia da Lua obtida por John Adam Whipple, seu compatriota de Boston, 118 anos antes que os astronautas Neil Armstrong e Edwin Aldrin pisassem o solo lunar e tirassem as primeiras fotografias na Lua. Outro desafio vencido no século XIX foi o da primeira fotografia submarina, realizada pelo francês Louis Boutan em 1893. Entretanto, convém não perder de vista o fato de que a evolução tecnológica da fotografia não visava apenas à realização de semelhantes proezas, refletindo antes o anseio de transformá-la em importante auxiliar no desenvolvimento de, virtualmente, todas as áreas do conhecimento. Tanto isto é verdade, que os cientistas James Watson e Francis Crick só tiveram o vislumbre da configuração helicoidal do ácido desoxirribonucleico (DNA) quando examinavam uma fotografia em Raios-X realizada por Rosalind Franklin no King’s College de Londres, em 1953. Informação que contribuiu decisivamente, para as pesquisas que lhes permitiram provar que o DNA armazenava informações genéticas capazes de o fazer reproduzir a si mesmo - um passo gigantesco no avanço da engenharia genética.
Ao mesmo tempo em que permitia descortinar o inacessível, a fotografia avançava na revelação do invisível. Por volta de 1870, Eadweard Muybridge iniciou os experimentos que o levaram a fotografar todas as etapas do galope de um cavalo, com a ajuda de doze câmaras, em 1877 - mais tarde ele chegaria a empregar até 36 câmaras sincronizadas. Isto comprovou que o animal, de fato, levantava as quatro patas do solo, simultaneamente, contrariando os moldes clássicos de representação do galope na pintura. Essa conhecida sequência foi o marco inaugural da cronofotografia, posteriormente aperfeiçoada pelo francês Étienne-Jules Marey, inventor do fuzil fotográfico em 1882.
Nesta época, já estava bastante definida a oposição que iria dividir a fotografia em dois blocos básicos: o realista e o criativo, com alguns autores postulando que a fotografia deveria ser apenas um documento, o mais fidedigno possível; enquanto outros lutavam para vê-la reconhecida como disciplina artística tão prestigiosa quanto a pintura. Alguns chegaram a se equivocar nesta batalha, tentando empregar as próprias armas da pintura para igualá-la, numa estratégia ingênua que os levou a acreditar que a boa fotografia era precisamente aquela que não se assemelhasse em nada com uma fotografia, imitando o desenho ou a gravura.
A FOTOGRAFIA COMO ESPELHO DA ALMA: A HEGEMONIA DO RETRATO
No alvorecer da fotografia, uma sessão de pose era uma ocasião rara - por vezes, única na vida - revestida do clima cerimonioso de um ritual iniciatório combinado com o desconforto de um procedimento médico, em virtude da necessidade de manter a total imobilidade durante o longo tempo de exposição requerido. Por essa razão, os primeiros daguerreotipistas, escravos da luz do Sol, só realizavam retratos nos horários de maior intensidade luminosa, das 10 às 15 horas. Nesta época, as cabeças precisam, inclusive, ser mantidas presas em forquilhas, especialmente concebidas para esse fim, sendo esse desconforto realçado pela necessidade de manutenção dos olhos bem abertos, para evitar as piscadelas. A necessidade de neutralizar o leve oscilar natural do corpo humano, do qual não nos damos conta normalmente, mas que a câmara registra implacavelmente, levou ao estratagema de ornamentar os estúdios com diversos acessórios visando oferecer o apoio requerido, como colunas, balaustradas e mesas. Como o mobiliário dos estúdios procurava reproduzir o ambiente doméstico burguês de modelo francês, fica difícil localizar com precisão uma fotografia que não tenha o autor e/ou o modelo identificados pois, na ânsia de oferecer uma aparência de próspera elegância, os estúdios se tornaram uma espécie de “lugar nenhum”, muitíssimo parecidos entre si. No Catálogo da Companhia Photographica Brazileira, para os anos de 1892 e 1893, Juan Gutierrez — sediado à rua Gonçalves Dias 40, na então Capital Federal — anunciava: “Em nosso depósito encontrão-se moveis e acessorios de atelier, já promptos, tendo para todo preço e todos os estylos./Por encommenda e a preços razoaveis a casa encarrega-se de qualquer pedido genero rustico, Luiz XV, etc.” Existindo a possibilidade de opção entre “Meubles de pose simples et a Changements” (estes últimos podendo ser entendidos como “multiuso”, pois permitiam a combinação com outros acessórios para simular a mudança de ambiente de uma pose para outra).
O daguerreótipo era uma peça única, constituída por uma placa de cobre revestida de prata (a substância fotossensível) polida e apresentada em estojos especiais - primeiro de madeira, revestida de couro trabalhado em baixo relevo e, depois, de baquelita com ornamentos em relevo -, ricamente ornamentados com passe-partout de metal dourado e forração interna de veludo trabalhado. Em meados da década de 1845, custavam em média 5$000 os menores e mais encontradiços (com cerca de 9 x 7cm, correspondendo a 1/4 da chamada “placa inteira” ou “lâmina grande”), num momento em que o salário mensal de um professor de pintura da Academia Imperial de Belas Artes oscilava entre 25 e 65 mil réis.
Em virtude do alto preço, os daguerreótipos eram reservados a uma pequena elite mas, foram sucedidos pelos ambrótipos cujo suporte de emulsão era o vidro e não o cobre, circunstância que barateou enormemente o preço, a ponto de que os ambrótipos fossem chamados nos Estados Unidos de “daguerreótipo dos pobres”. Ainda eram apresentados nos mesmos estojos luxuosos como também seriam, em seguida, os primeiros ferrótipos, processo ainda mais barato, pois empregava como suporte para a emulsão uma finíssima lâmina de ferro. Cronologicamente, a sucessão destes primeiros processos que geravam imagens únicas foi a seguinte: 1839 — daguerreótipo; 1851 — ambrótipo; 1856 — ferrótipo. Mas não se deve pensar que o surgimento de um processo tenha relegado, imediatamente, o anterior ao ostracismo, pois aqui no Brasil, até meados da década de 1860, ocorreu uma utilização concomitante destes três processos que chegaram inclusive a conviver com o sistema que os destronou em definitivo: o processo negativo/positivo.
Em meados da década de 1860, os processos inaugurais caíram em desuso por terem sido suplantados, como foi dito, pelas cópias em papel albuminado realizadas a partir de negativos de colódio úmido, assim denominados porque exigiam a exposição da placa ainda úmida, logo após o emulsionamento. Esta exigência tornava até mesmo as fotografias em estúdio de produção lenta e complicava bastante a produção de vistas externas, posto que o fotógrafo era obrigado a recorrer a um laboratório de campanha, transportando muitos quilos de equipamento. Por outro lado, o negativo apresentava a vantagem de permitir a obtenção de um número hipoteticamente ilimitado de cópias, o que deu ensejo ao surgimento do sistema de apresentação batizado de carte de visite, concebido pelo francês André Adolphe-Eugène Disdéri (1819/1889). A denominação “cartão de visita” decorria do pequeno formato de imagem, cerca de 9,5 x 6 cm, apresentada sobre um cartão suporte de 10 x 6,5 cm. A economia propiciada por este sistema - obtido com uma câmara dotada de seis objetivas - o tornou o mais popular da segunda metade do século XIX, se desdobrando até mesmo pela primeira década do século XX.
Apesar de pouco onerosa a carte de visite tinha uma apresentação elegante em virtude da montagem em cartões-suporte rígidos de boa gramatura que funcionavam como sucedâneos do passe-partout, assim como pelas inscrições com letras douradas, complementadas pelas belas vinhetas detalhando os feitos (prêmios e títulos obtidos) e os serviços oferecidos pelos fotógrafos. Para aferir sua economia em relação ao daguerreótipo, basta lembrar que na cidade do Rio de Janeiro, Carneiro & Gaspar ofereciam no início da década de 1870, uma dúzia de retratos em carte de visite por apenas 5$000, preço anterior de um único daguerreótipo de pequeno formato. Além disso, exista a vantagem suplementar de não apresentar mais a imagem invertida [no sentido lateral, como a de um espelho], e a possibilidade de realização de novas cópias, sem o inconveniente da repetição da sessão de pose, pois os fotógrafos costumavam arquivar ciosamente os negativos com essa finalidade. Outra grande vantagem propiciada pelo uso do negativo - que foi adquirindo crescente popularidade entre o público, a ponto de se tornar uma verdadeira mania nas primeiras décadas do século XX -, era o retoque, destinado a eliminar pequenas imperfeições (como rugas ou manchas) na pele dos retratados, oferecendo assim uma imagem idealizada dos clientes. Procedimento levado hoje, na era digital, ao paroxismo, com o fenômeno do Photoshop e outros programas similares de tratamento de imagem cujo uso abusivo já começa a ser combatido, em virtude de manipulações canhestras que transformam os retratados em paródias ou caricaturas de si mesmos.
A pintura sobre imagens fotográficas foi empregada desde o tempo da daguerreotipia, quando um exemplar em fumo (preto e branco) custava cerca de 5$000, mas podia alcançar 8$000, caso fosse colorido por um artista pintor. O preço alto se justificava: era extremamente difícil pintar sobre a frágil superfície dos daguerreótipos, existindo o risco constante de arranhões ou de supressão de porções da imagem. Isto fez com que as primeiras interferências fossem discretas e visassem, sobretudo, remediar o que parecia a muitos uma deficiência da fotografia: a falta de cor. Contudo, a partir da década de 1860 a fotografia sobre papel tornou possível a aplicação de espessas camadas de tinta de natureza variável, desde a aquarela até a tinta a óleo, passando pelo guache, propiciando o surgimento da voga da fotopintura. Entre os mais importantes praticantes desta técnica no Brasil figuram Joaquim Insley Pacheco e Karl Ernest Papf, ambos pintores e fotógrafos. O primeiro sediado na Corte, e o segundo em Petrópolis, depois de trabalhar sucessivamente para a Photographia Allemã de seu compatriota Alberto Henschel, no Recife, em Salvador e no Rio de Janeiro. Também merece citação neste campo Augusto Stahl, com a diferença que as peças produzidas pelo estúdio Stahl & Wahnschaffe, não eram pintadas por ele e sim por seu sócio, Germano Wahnschaffe. As fotopinturas oscilam entre o sutil colorizar de fotografias que continuam reconhecíveis como tais até o completo emplastramento da imagem, escondendo-a sob espessa camada de tinta, de forma tal que, algumas tradicionais famílias do país possuem alguns retratos nesta técnica sem saber, acreditando serem simples pinturas. Essa técnica foi deplorada por alguns mais puristas, entre os quais o renomado pintor Victor Meirelles, como uma ameaça de “regressão da verdadeira arte” . Porém, apresentava a considerável vantagem de reproduzir a aparência de uma pintura tradicional por preço mais em conta e sem o sacrifício das longas e fastidiosas sessões de pose.
Curiosamente, essa tentativa de conferir ao retrato fotográfico ses lettres de noblesse por intermédio do mimetismo da pintura persiste até hoje, já sem a necessidade de intermediação do artista. Este foi substituído pela tecnologia digital dos computadores em processos como o Photo Canvas, que efetua ampliações de grande formato sobre tela de pintura (com suave desfoque "semi-impressionista", destinado a suavizar os traços dos modelos), montadas em seguida, em imponentes molduras.
Na esteira da carte de visite surgiram outros sistemas de apresentação semelhante. O mais conhecido foi o carte cabinet, com imagem de aproximadamente 9,5 x 14 cm montada sobre cartão suporte de 11 x 16,5 cm, em voga no período compreendido entre 1863 e 1920. Variações em outros formatos maiores também existiram, recebendo denominações como carte impériale - com imagem de 20 x 25 cm; em uso entre 1870 e 1900 -, ou comercializadas sem qualquer denominação específica. Uma das razões do sucesso do formato carte de visite foi o fato deste, ter dado ensejo ao surgimento do álbum de retratos. Os primeiros álbuns fotográficos eram magníficas peças de fabricação artesanal muito mais sofisticadas que os álbuns industriais de hoje. Tinham quase sempre luxuosa encadernação de couro (quando não, de tecido fino de qualidade superior), com fechos e cantoneiras de metal dourado e páginas decoradas com desenhos, iluminuras, ou filetes dourados. Chegaram a existir até modelos com caixinha de música embutida, acionada com a abertura do álbum, de forma a pontuar seu folhear com uma aprazível melodia. O álbum de retratos era um livro virgem, no qual era possível condensar a saga familiar, como uma espécie de versão visual das árvores genealógicas, incluindo desde os membros fundadores aos últimos descendentes, já que o recurso da reprodução (de desenhos, gravuras ou pinturas) permitia a inclusão de antepassados falecidos antes do advento da fotografia. Não raro, constavam destes álbuns, retratos das grandes personalidades da cena política e cultural, disponíveis para aquisição nos estúdios fotográficos como hoje o são, nas bancas de jornal, os cartões-postais de estrelas de cinema ou de ídolos da música pop.
A FOTOGRAFIA COMO LINGUAGEM
Como a invenção da fotografia decorreu das tentativas de aperfeiçoamento das técnicas de gravura, nada mais natural que a nova disciplina incorporasse, na fase inicial, as normas clássicas de composição, que regiam a pintura, a gravura e o desenho. Entretanto, a própria especificidade técnica do processo fotográfico acabou por oferecer novas perspectivas criativas e propiciar o surgimento de uma nova linguagem visual, com profundas implicações transformadoras, não só sobre o panorama artístico quanto sobre a própria visão global da humanidade a respeito do mundo e do sistema planetário no qual ele se insere.
Ao liberar a pintura da servil representação do real, a fotografia permitiu que esta se dedicasse unicamente à dimensão criativa, aprofundando as pesquisas estéticas que fizeram com que a pintura criasse um ideário visual baseado não na reprodução do visível e sim nas percepções subjetivas e pessoais dos artistas. O que possibilitou, entre outras coisas, o florescimento do conceito oitocentista de arte pela arte, independente das dimensões religiosa, política e social, que constrangiam, até então, a plena evolução da arte.
Antes do surgimento da fotografia, a pintura só representava os objetos com absoluta nitidez e total fidelidade, empregando basicamente dois pontos de vista: o do olho humano (com o observador de pé, na maioria dos casos, ou sentado, no caso dos retratos), ou aquele denominado vol d’oiseau (vôo de pássaro). Este último capaz de abarcar uma grande extensão de terreno numa paisagem, similar à vista descortinada a partir dos torreões de um castelo ou do campanário de uma igreja. Sendo que os recortes eram sempre lógicos e bem proporcionados, com os objetos representados em sua inteireza numa composição obediente à regra áurea, na qual o tema principal, o clímax visual da tela, era situado a um terço da área total da obra. A fotografia ofereceu todo um inédito universo visual para a pintura, ao introduzir novas formas radicais de enquadramento, em plongée (tomada de cima para baixo), em contra-plongée (tomada de baixo para cima), ou em close-up (tomada bastante próxima ao tema). Revelou ainda detalhes invisíveis a olho nu, tanto daquilo que é demasiado pequeno (através da microfotografia, realizada através de um microscópio, e da macrofotografia, a fotografia em extremo close, na qual o tema é representado numa relação igual ou superior a 1:1), ou daquilo que está demasiado longe, por intermédio da astrofotografia, (a fotografia de astronomia), realizada através de potentes telescópicos capazes de nos aproximar de estrelas e planetas longínquos. O registro do movimento, imobilizando-o, ou, como se convencionou dizer, congelando-o, num instante determinado de sua trajetória também aportou novas contribuições visuais, como o flou (a imagem desfocada), a imagem tremida, e o registro dos fenômenos excessivamente fugazes para serem percebidos pelo olho humano, tais como a configuração da trajetória de um relâmpago ou a queda de uma gota d’água no solo. Ou então, com a decomposição do movimento por meio das imagens sequênciais realizadas em intervalos regulares de tempo, primeiramente através da cronofotografia (inventada por Eadweard Muybridge em 1877), e depois por meio da fotografia com luz estroboscópica desenvolvida por Harold Edgerton a partir de 1931. Todas as características específicas da fotografia acabaram sendo incorporadas pela pintura, de imediato ou a longo prazo. Valendo lembrar, a título exemplificativo que o decantado Nu descendant un escalier de Marcel Duchamp, que tanta celeuma causou quando apresentado pela primeira vez no Armory Show em Nova York, em 1913, nada mais é do que a versão pintada de uma cronofotografia. Assim sendo, é possível resumir a contribuição dada pela linguagem fotográfica ao universo artístico como uma verdadeira “revelação”, de múltiplas e profundas consequências.
Além disto, é importante ressaltar que, em sua condição de primeiro sistema de imagem técnica, a fotografia é a célula-mater de todos os sistemas técnicos de representação visual que a sucederam, como o cinema, a televisão, a imagem digital e o universo virtual como um todo. A fotografia foi a base sobre a qual foi erigida a atual civilização do olhar. Nada mais adequado, portanto, do que a realização da presente exposição para homenageá-la nos seus 170 anos de existência no Brasil. Homenagem feita sob a forma de gabinete de curiosidades fotográficas, congregando exemplos de diversos processos históricos, assim como livros que exerceram papel de fundamental importância para a afirmação da fotografia como meio de expressão independente.
Pedro Afonso Vasquez é diretor do Solar do Jambeiro (unidade da Secretaria Municipal de Cultura de Niterói/RJ) e autor de 23 livros, entre os quais: Dom Pedro II e a Fotografia no Brasil; e O Brasil na Fotografia Oitocentista.
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